sábado, 18 de fevereiro de 2017

Onde a Verdade da Bíblia - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 124/?

À procura da VERDADE nos livros Proféticos 


ISAÍAS – 1/17

- Da Introdução feita pelo “nosso” comentador, depreende-se 
que a actividade de Isaías ter-se-á desenrolado ao longo de 
42 anos, desde 740 a.C. a 698 a.C. E afirma-se: “O verdadeiro 
profeta (…) é aquele que preserva a tradição autêntica do seu 
povo, perdida ou deformada (…) ou seja, o reencontro com o 
verdadeiro Deus revelado a Moisés: Eu sou Javé, teu Deus, 
que te fez sair da terra do Egipto, da casa da escravidão 
(Ex 20,2; Dt 5,6). Portanto, profeta é aquele que se inspira na 
acção libertadora do Deus do Êxodo e, a partir daí, analisa a 
situação presente e mostra o projecto de Deus quanto ao futuro 
do seu povo.” (ibidem)
- Comentemos também, questionando: Foi realmente Deus que 
disse “Eu sou Javé, teu Deus…” ou foi Moisés - perdoem-nos 
a repetição - que tal inventou, interpretando os seus sonhos, 
dando, com o nome de Javé, força à sua mensagem? Que melhor 
modo haveria para levar todo um povo rebelde mas crente 
e supersticioso, a obedecer às suas normas? Assim, também, se é 
o profeta que “analisa a situação presente e mostra o projecto de 
Deus quanto ao futuro”, como se atreve ele a falar como se fora 
Javé? Não será pelas mesmas razões que levaram Moisés a dizer 
que ouvira a voz de Deus dizendo: “Eu sou Javé, teu Deus”? 
Haverá algo mais convincente do que falar em nome de Deus?!
- “Escutai, ó céus; ouve ó Terra! É Javé que fala: Eu criei e 
eduquei filhos mas eles revoltaram-se contra Mim.” (Is 1,2)
- Javé que fala? Que presunçosa apropriação de Deus! Que 
descarado despudor! Este modo de falar dos profetas é 
simplesmente inaceitável!
- “Ai de vós, nação pecadora, povo carregado de crimes, raça de 
perversos, filhos renegados. Vós abandonastes Javé, desprezastes 
o Santo de Israel (…) Escutai a palavra de Javé, chefes de 
Sodoma (…) Que me interessa a quantidade dos teus sacrifícios? - diz
 Javé. (…) Lavai-vos e purificai-vos (…) Deixai de fazer o mal (…) 
buscai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão (…). Se 
recusardes, sereis devorados pela espada. Assim fala a boca de Javé. 
Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes, era cheia 
de justiça; agora, está cheia de criminosos!” (Is 1,4-21)
- Que em Jerusalém, imperava a corrupção, o crime, a injustiça, 
parece não haver dúvidas e bem merecia ser chamada de “prostituta”. 
Mas, decerto, não é Javé mas o profeta que fala, tal constatando, 
invectivando tais costumes, “apropriando-se” novamente de Javé 
para - como já dissemos - dar força às suas invectivas, na boa 
tradição bíblica em que Javé tudo explica, com o prémio ou o castigo!
- A propósito, comenta-se: “ Para compreender estes cinco capítulos, 
é importante ter presente o contexto histórico. (…) Isaías reage de 
forma enérgica à disparidade social que se verifica dentro do seu país 
e critica violentamente a falsa piedade e as práticas religiosas que 
escondem a opressão.” (ibidem)
- Tudo muito bem! Mas, que de divino tem um discurso que qualquer 
político de esquerda actual poderia ter num qualquer comício 
de campanha eleitoral? Porquê considerar um de inspiração divina, o 
outro, simplesmente… político? E é divino defender as minorias 
contra os opressores? Ou é simplesmente dar um lugar à justiça… entre 
os homens?


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Do corpo e da alma


Será que a pessoa humana é uma dicotomia alma/corpo, o corpo suportando a alma, ambos coexistindo, enquanto há vida e se separam quando morrem? E como definir alguém em estado de coma? Ou quando perde os sentidos, a consciência? Ou no limiar da morte?  Ou quando jaz morto, já cadáver? – Para responder, temos de definir o que é a alma, a anima dos latinos ou a psiké dos gregos. Já dizia o filósofo grego Sócrates, séc. IV a.C., que, aquando da morte, o que morre é apenas o corpo, a alma sobrevive em outro lugar, outra dimensão.
Tal dicotomia tornou-se clássica e foi bem aproveitada pelas religiões para atribuírem uma eternidade à alma, ao espírito, àquilo que, afinal, definiu uma pessoa, enquanto ser humano racional tendo, após a separação do corpo, de estar sujeita a um julgamento a que se seguiria um Céu como recompensa pelo Bem feito, ou um inferno como castigo pelo Mal praticado. O corpo foi mais ou menos belo, mais ou menos alto, mais ou menos volumoso, mas isso pouco importou. O importante foi mesmo o espírito, a essência da pessoa, sendo esta vida uma passagem para a outra, a eterna.
Ora bem, à alma atribuem-se facilmente todos os predicados que, fazendo parte da essência humana, são imateriais ou, se quisermos, não fazem parte das componentes do corpo, essa máquina fantástica mas que é pura matéria orgânica animada da energia que lhe é fornecida todos os dias pelos nutrientes de que se alimenta, pelo ar que respira.
No entanto, a alma só subsiste, enquanto existe corpo e subsiste “inteira”, enquanto este não é mutilado em algum dos seus órgãos essenciais, sobretudo o cérebro. Atinja-se o lóbulo X e a pessoa deixará de falar, ou o lóbulo Y e deixará de raciocinar, etc., pois sabemos que é no cérebro que estão localizadas as diversas funções da alma.
O cérebro é fantástico: sendo pura matéria, composta por milhões de neurónios ligados por milhares de milhões de sinapses, consegue congregar em si todas as atribuições da alma: a razão e o pensamento, a capacidade de construir raciocínios abstractos, os diversos tipos de inteligência, as emoções, a vontade, a intuição, a determinação, o espírito de decisão, os sentimentos de amor, ódio, vingança, inveja, benevolência, paciência, compaixão, a paixão, a ética, a moral, a perversidade, a ganância, a animosidade, a incompreensão, o ressentimento, o arrependimento, a generosidade, a comiseração…, a regulação do instinto de sobrevivência – o mais forte em qualquer ser vivo! – bem como as coisas mais comezinhas ligadas aos sentidos da vista, olfato, gosto e tacto, até à detecção da dor, do desejo, da libido, do prazer, da sede, da fome…, determinando e obrigando o corpo a exercícios que nem sempre são os mais adaptados ao mesmo corpo, mas levando este a manifestar capacidades que, não exercitado, nunca conseguiria alcançar, tanto no desporto, como na arte. Por exemplo, para dominar um instrumento musical, quantas horas diárias de treino não são necessárias?! Haverá, pois, muita razão no dizer que “quando a cabeça (a alma) não tem juízo, o corpo é que paga”, embora a dor de um (o corpo) se reflicta, como espelho, no outro (a alma), ambos se afectando contínua e mutuamente. Para o bem e para o mal!
Enfim, o cérebro é a matéria capaz de produzir não-matéria, como raciocínios e abstracções, actividades próprias daquilo a que podemos chamar de espírito. Um milagre? – Se há milagres, este é um deles. Tal como a Vida que brotou, um dia – há três mil e quinhentos milhões de anos – supõe-se que nas lagunas superficiais da Terra, onde vários elementos químicos aquecidos pelo Sol, foram levados a reacções de união e multiplicação, originando moléculas energizadas, logo, contendo vida. Daí até ao Homem, foi uma longa odisseia, felizmente já parcialmente conhecida, tendo talvez culminado na época dos dinossauros que reinaram na Terra cerca de duzentos milhões de anos e se extinguiram há cerca de sessenta e cinco milhões, subsistindo deles ainda alguns pequenos exemplares répteis ou alados. O Homem – este “grande” senhor, capaz do melhor e do pior do que já alguma vez se viu à face da Terra – apareceu apenas há quatro milhões de anos, por evolução das espécies. Em termos do Tempo Universal, foi há coisa de poucos minutos ou segundos…  
Sendo assim, poderemos dizer que a alma é o cérebro, já que este contém todas as funções que lhe são atribuídas? Ou é o sopro vital que anima o corpo, já que, num cadáver, a forma ainda lá está, mas inanimada? Ou é a consciência de todas estas virtualidades actualizadas, já que, em estado de coma, o corpo vive vegetativamente apenas, mas não morreu, i. é., ainda tem o sopro vital – o coração bombeando o sangue e os pulmões purificando-o – e tem, em potência, as propriedades da alma que serão recuperadas se se sair daquele estado? (No coma, é clara a dicotomia clássica corpo-alma).
Vamos ao início: da união de um espermatozóide e de um óvulo, nasce um novo ser, uma nova vida! Lindo! Fantástico! E, naquele momento, começam a viver, em simbiose perfeita, um corpo e uma alma que, carregando a carga genética – não toda e, infelizmente, muitas vezes nem sempre a melhor! – dos seus progenitores, jamais se separarão, significando que o corpo é o suporte da alma e a alma o suporte do corpo, ambos com funções diferentes e alimentando-se de modos diferentes: o corpo com nutrientes-matéria, a alma, com aprendizagens sucessivas até atingir um grau de humanidade diferenciada conforme os múltiplos factores de que depende o novo ser: local onde nasceu, os progenitores, a sociedade onde se insere, etc., etc. Passado o seu tempo, esse ser morre, isto é, separam-se corpo e alma. Realmente, separar o corpo da alma é matar ambos, pois um não vive sem o outro, logo, é matar o ser existente. Quando o corpo deixa de funcionar, o coração parando e não mais bombeando o sangue que o irriga, a alma “apaga-se” com ele. Tal como quando nasceu se “acendeu” com ele! A energia que a constituía e com a qual animava o corpo, sendo ela essa mesma energia, simplesmente desapareceu; ficam as moléculas de matéria orgânica de um corpo que, cadáver, ainda tem forma, mas que muito em breve será apenas átomos e moléculas que irão integrar-se no donde vieram: a Mãe-Terra!
Resta dizer que tudo o que se disse dos humanos, se pode dizer de qualquer animal, mutatis mutandis, com muitas semelhanças, nuns, muitas diferenças noutros, uns guiando-se mais pelo cérebro, outros mais pelo instinto. E, no limite, se pode dizer de qualquer ser vivo, do micróbio, aos seres unicelulares, a qualquer vegetal ou planta…

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Cerimónias para o funeral de um agnóstico


Proposta

Antes da proposta, há que explicar o que é um agnóstico. O agnóstico nem é crente nem é ateu. Tem um princípio incontestável: “Todas as religiões e seus deuses foram inventados pelos Homens, construindo esses deuses à sua imagem e semelhança.” Daí que, racional e logicamente, não acredite nas religiões, quer antigas, politeístas (egípcias, mesopotâmicas, caldaicas, gregas, romanas, celtas, germânicas, etc.) ou trinitárias como a hindu (com a sua trindade: Brama, Shiva e Vixnu) quer mais recentes como a judaica com o seu monoteísmo de um Javé protector do auto-proclamado “povo eleito”, a cristã (com o seu monoteísmo disfarçado num mistério de trindade: Pai, Filho e Espírito Santo – um Deus único e trino!), ou a muçulmana com o seu profeta Maomé e o seu Deus Alá, quer qualquer crendice em anjos, santos, virgens, paraísos ou infernos, etc.
O agnóstico acredita na VIDA e no Deus que é o ABSOLUTO, O TUDO ONDE TUDO SE INTEGRA, CONTENDO TODO O ESPAÇO (por ser infinito) E TODO O TEMPO (por ser eterno), TUDO SENDO PARTÍCULAS DELE, DO ÁTOMO, AO UNIVERSO.
Aliás, de um ponto de vista científico, toda a crença nos deuses inventados pelo Homem é ridícula. Então, não sabemos já que o Homem é apenas um minúsculo ser – racional, pelo acaso da evolução – de um pequeno planeta, que pertence a uma pequena estrela, filha de uma galáxia, com mais de duzentos mil milhões de outras estrelas, galáxia entre milhares de milhões de outras que terão certamente muitos planetas onde também haverá vida semelhante à nossa? As religiões – pesem embora alguns benefícios de ordem psicológico-emocional – só amesquinham o Homem na sua essência de ser racional. Amesquinham o Homem e amesquinham Deus, porque o antropomorfizam, ao atribuir-lhe sentimentos sejam de amor, ódio, vingança..., habitando num dado lugar, etc., etc.
Ora, é contra isto que o agnóstico luta! Na vida como na morte, seguindo o lema: “Em qualquer situação em que o Homem se encontre, enquanto ser vivente, que se cante um louvor à VIDA!” 

Tempo de duração da cerimónia: c. de 2 horas
Indumentária: informal e colorida
Mestre de cerimónias indigitado pelos familiares do/a defunto/a

1 – Escolhe-se um local confortável para todos os “convidados”: igreja, salão paroquial ou de festas, sala de espectáculos, sala de convívios…, e para lá se transportam os restos mortais do/a defunto/a, num simples caixão de madeira.
2 – Contratam-se músicos, cantores e tocadores, solistas ou coro e orquestra, de acordo com as posses dos familiares.
3 – Todos aqueles a quem for anunciado o falecimento, ficam convidados a dizerem umas palavras (2 a 3 m, cada) sobre o/a falecido/a; não só um elogio ao seu contributo para a sociedade, família, amigos, país, mundo – mundo que o/a viu nascer, mundo que o/a viu partir – mas também relembrando qualidades a imitar manifestadas durante a Vida.
4 – Após 3 ou 4 intervenções, música, canto e dança. Alguma pode ser fúnebre, lembrando o inexorável fim da vida e, ali, daquela que se findou. É sempre maravilhoso e comovente o Requiem de Mozart de que se podem tocar/ouvir umas partes: o Dies Irae é brilhante! Mas, de preferência, alleluias e músicas que foram do agrado do defunto, celebrando-se a vida dos que ficam – até um dia! O Alleluia de Haendell será uma boa opção. Afinal, tudo é vida: “Se a semente não morrer e não cair à terra, não dará fruto!” Aqui, não dará fruto, como as sementes das plantas, mas integrar-se-á na vida de outros seres que se apropriarão de seus átomos e moléculas, átomos e moléculas que se uniram para fazer parte daquele ser que um dia foi, e que, agora, ficam disponíveis para uma nova “aventura”… Lindo, não é? A emoção ao serviço da razão! Então, celebremos essa Vida, onde, afinal, nada se criou, nada se perdeu, tudo se transformou: a morte é uma transformação!
5 – Um “porto de honra” e uma “pause-café” com petits-fours e outros bolos, ao fim da 1ª hora, ficarão muito bem!
6 – Nos cumprimentos aos familiares, mais sorrisos e abraços, por continuarmos vivos, do que lágrimas e pêsames pelo/a que já partiu e já viveu a sua vida, fazendo daqueles momentos, momentos de partilha, de convívio, de afectos…
7 – Algumas flores – ramos bonitos e não coroas de defunto – flores que serão distribuídas pelos familiares do/a defunto/a aos convidados. Temos que, em todos os momentos da cerimónia, lembrar a VIDA que continua e não a morte que é o seu termo natural anunciado desde a hora do nascimento.
8 – Se foi poeta/poetiza, recitem-se poemas; se escritor/a, leiam-se alguns excertos significativos de seus livros; se pintor/a, mostrem-se alguns quadros; se pai, mãe de família, apresentem-se seus filhos com elogios de saudades… Sempre ideias de VIDA que nestes se perpetua!
Cativante, não é? Resta saber, então, quando é que alguém terá a coragem de ser o primeiro a fazer tal funeral e seguir esta proposta, hipotecados que estamos ao tradicional velar o defunto, acompanhando-o, após várias horas de choro e visão de rostos carregados, entre choros e gemidos, à sua “última morada”. Bem vistas as coisas, acto humanamente deprimente, porque se deixou de fazer o equilíbrio entre a emoção e a razão. Só sendo emoção, o Homem pode destruir-se…
 Embora já nada sinta, naquele momento da transformação, gostaria de pensar, enquanto vivo, que o meu funeral seria assim: um hino à VIDA. Você não?! E, de certeza, teremos elogios sinceros no nosso funeral se, quando a nossa hora se aproximar, pudermos dizer, com toda a sinceridade e orgulho, um sorriso nos lábios: “Eu vali a pena! Com a minha vinda à Vida, o mundo ficou melhor e mais belo!”
Aliás, só pensando neste final “apoteótico”, daremos sentido à Vida, esta dádiva a que, um dia, tivemos a sorte de aceder, sem nada termos feito para isso… As religiões propõem outro sentido para a vida: preparar a eterna, no Céu, junto de Deus, um Paraíso de delícias, acompanhados de anjos e santos…, sendo esta apenas uma passagem. Seria lindo, não há dúvida, emocionalmente fantástico e daí que haja tantos crentes em tal eternidade. Mas é tudo fantasia, tudo imaginação de uns quantos que se disseram iluminados e que “impuseram” tais crenças aos milhões que em tal fantasia acreditam… É que nenhuma eternidade é possível aos seres pertencentes ao Tempo!

Final da cerimónia:
Todos se despedem, desejando-se uma longa vida feliz, sorriso nos lábios por poderem continuar a contribuir para o tal mundo melhor e mais belo…
Os restos mortais do homenageado/a serão levados discretamente para o crematório, assegurando-se os familiares de quando receberão as cinzas. Estas, mais tarde, serão espalhadas ao vento, no alto de uma montanha ou no mar, certos de que, onde caírem, serão integradas plenamente na Natureza de onde um dia, pelo milagre da vida, se transformaram num ser com vida! Aqui, o livro da Bíblia, Génesis, 3.19, tem razão: “Viemos do pó e para o pó voltaremos.” Não há dúvida: sermos átomos e moléculas de outros seres vivos, ou não, será a nossa única possível eternidade. O processo é imparável: nós também usámos os átomos e moléculas de outros que nos precederam…

sábado, 28 de janeiro de 2017

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 123/?


À procura da VERDADE nos livros Sapienciais – 123/?


O ECLESIÁSTICO – 15/15

- Estamos aproximando-nos do fim da análise de mais um livro 
bíblico.
Antes de terminar o seu livro, Ben Sirá olha à sua volta e para 
o céu e tece um hino à grandeza de Deus que se manifesta na 
Natureza e no firmamento, concluindo: “Ele é tudo”. 
(Eclo 42; 43,27) Depois, recorda a História, evocando mais de 
três dezenas de antepassados hebreus, entre os quais, Noé, 
Abraão, Isaac e Jacob, Moisés, Josué, Samuel, David, Salomão 
(Eclo 44-50). Pura História que apenas interessará ao povo judeu! 
Fazem ainda parte do livro, um apêndice com dois textos 
acrescentados ao livro, para o encerrar com o tema do 
agradecimento e o da procura da Sabedoria. Estes acrescentos ao 
original revelam, no mínimo, a inspiração instável da divindade…

Causando alguma perplexidade a expressão “Ele é tudo”, 
expressão que pode apontar para um panteísmo natural, onde Deus 
estaria presente em tudo e em toda a parte, tudo sendo partículas 
dele…, apressa-se o “nosso” comentador a dizer: “ (…) Não 
em leitura panteísta, mas na sua transcendência, estando acima de 
tudo e sendo o Senhor de tudo, Senhor que nunca ninguém viu 
(cf Ex 33,20; Jo 1,18; 1Jo 4,12). De todos os seres, o Homem é o 
único que pode tomar consciência de Deus, que é o mistério supremo 
escondido por trás de todos os outros mistérios. Paulo dirá que o 
sentido último da vida é louvar a Deus (cf Ef 1,5-6).” (ibidem)

Embora compreendendo o “nosso” comentador, já que está 
hipotecado à doutrina da Igreja, tendo os exegetas cristãos de 
encontrar explicações para tudo o que a Bíblia diz, dentro dos 
cânones estabelecidos…, não vemos que falta de lógica haverá em 
considerar que tudo seja Deus, já que, por ser Infinito, tudo está 
nele, tudo faz parte dele, sendo Ele mesmo o TODO EXISTENTE! 
Não é muito melhor concepção do que considerar Deus um ser 
invisível, misterioso, da fé? Porque não somos nós partículas 
do TODO que é Deus, um TODO visível e invisível, temporal, 
para as coisas que têm tempo ou vivem no tempo, eterno para as 
realidades desconhecidas que estão fora do tempo, e infinito para o 
espaço que só o é por uma relação entre uma coisa e outra? Acaso, 
poderemos algum dia, conhecer os limites do Universo? E 
mesmo que os conhecêssemos, outra pergunta permaneceria 
exactamente como hoje: “O que há para além dos limites?” 
Ora, repugna à nossa inteligência dedutiva que haja dois infinitos: 
um o Universo, outro Deus. Aliás, imaginemos uma linha recta 
que passe diante de nós. Acaso conseguimos ver-lhe o princípio 
ou o fim? Dizemos, por isso, que é mistério ou dizemos que é infinita? 
Ora, se é infinita, pertence ao único infinito possível de existir e 
a quem podemos chamar, com toda a propriedade, DEUS!

Finalmente, e pondo em causa a autoridade de Paulo – realmente, o 
grande criador do cristianismo – perguntamos o que é isso de 
“o sentido último da vida ser louvar a Deus”. Deus precisa de ser 
louvado? Deus quer ser louvado? “Precisar”, “querer” não são verbos 
puramente humanos? Põe-se sempre a mesma questão de definirmos 
Deus. O cristianismo definiu-o como um Pai/Amor/Criador que se 
interessa pelos Homens e interfere na sua História; antropomorfizou 
Deus, atribuindo-lhe, à moda do Javé dos judeus, sentimentos, não 
de ódio e de vingança, como eram os daquele, mas de ternura, 
compaixão e amor. No entanto, tal definição, embora o torne um 
ser simpático que leva à emoção, não cabe na mente racional do 
Homem que pensa. Esse Deus nunca poderá ser o Deus Infinito e 
Eterno, mas – mais uma vez – um Deus criado à imagem e 
semelhança do Homem; logo, um Deus inexistente, tal como o 
Javé que supostamente inspirou a Bíblia – sendo pois a palavra 
de Deus! – que, afinal, iria ser corrigida por Jesus, o seu suposto filho…, 
já não falando na Bíblia do NT, interpretada, acrescentada, adulterada 
pelos padres dos primeiros três séculos, a começar pelos evangelistas.

Diríamos mesmo que inventar um Deus-Pai-Amor, Criador do 
Homem e que interfere na sua História, é amesquinhar a ideia de 
Deus: ser infinito e eterno que, forçosamente, tem de estar fora desta 
mesquinhez em que o tornaram. É nitidamente uma concepção 
medieval, revelando completa ignorância do que é a realidade Terra, 
dentro da realidade Universo. Agora, sabemos que o Homem não é 
mais que o elo de uma cadeia de vida que apareceu há c. de 3.500 
milhões de anos no planeta Terra, também ela pequena partícula 
perdida na imensidade do espaço onde pontuam milhões de galáxias, 
cada uma delas com biliões de estrelas semelhantes ao nosso Sol. 
Que presunção, santo Deus, querer um Deus a interessar-se por essa 
partícula absolutamente irrisória para o Universo/Espaço e Tempo! 
Enfim, tudo uma invenção trapalhona e bem humana que não merece 
qualquer credibilidade…

E acabámos a análise crítica de mais um livro que, apesar de algumas 
ideias interessantes, são ideias que não passam o campo puramente 
humano. A suposta inspiração divina esfumou-se na imaginação de 
quem o disse inspirado…

domingo, 22 de janeiro de 2017

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo testamento (AT) - 122/?

À procura da VERDADE nos livros Sapienciais 


O ECLESIÁSTICO – 14/15



- “Ó morte, como é amarga a tua lembrança para o Homem que vive 
tranquilo entre os seus bens (…) Tu, porém, não temas a sentença da 
morte. (…) Esta é a sentença do Senhor para todo o ser vivo (…) Quer 
vivas dez, cem ou mil anos, na mansão dos mortos ninguém discutirá 
sobre a vida. (…) Na hora da morte, (…) os injustos irão da 
maldição para a ruína (…) mas o bom nome permanece para sempre.” 
(Eclo 41,1-13)
- Que a morte é amarga para todo o ser vivo, sendo por um lado uma 
necessidade inerente ao acto de ter vindo à vida, num dado 
momento do Tempo, por outro, o interromper mais ou menos doloroso 
do instinto mais forte do ser vivo: preservar a mesma vida…, não há 
dúvida. Já a última afirmação parece-nos gratuita ou baseada na 
certeza da fé que, afinal, não é certeza nenhuma. Certo é que ficam 
votados ao esquecimento eterno tanto os injustos como os de “bom 
nome”. E, se alguma memória perdura, ela perdura tanto para os 
malvados como para os santos, tanto para os Hitlers como para as 
Madres Teresas de Calcutá!
- “Envergonha-te (…) por dirigires olhares para uma prostituta (…), 
por dirigires olhares cobiçosos para uma mulher casada (…), por 
ter relações sexuais com uma escrava (…). Não te envergonhes 
de discutir o preço com o comerciante, nem de corrigir os 
filhos com severidade, nem de ensanguentar as costas do escravo 
preguiçoso. Com a mulher curiosa é bom lacrar os documentos e 
usa a chave onde houver muitas mãos. Conta e pesa bem tudo o que 
deixares em depósito e anota por escrito tudo o que deres ou 
receberes (…)” (Eclo 41,22-24; 42,5-7)
- Tudo à… “judeu”! Sem ponta de divino! E perguntamos, com 
óbvia ironia: ocupar-se-ia Deus a dar/inspirar assim conselhos de 
tão comezinho viver do dia-a-dia, seja do senso comum, seja do 
trivial saber-viver? Depois, qualquer homem gosta de apreciar a 
beleza feminina, seja mulher solteira, casada ou prostituta. 
Confrange o desprezo manifestado em relação aos escravos. 
Aqui, foi certamente o diabo que inspirou o autor e não Deus! 
Nem falta o toque machista, no quotidiano desconfiar da 
curiosidade da mulher…
- “Uma filha é para o pai uma preocupação (…): se é virgem, receia 
que seja violada e fique grávida (…); se tem marido, receia (…) 
que seja estéril. Vigia bem a filha libertina para que não faça de ti 
objecto de zombaria dos inimigos, assunto da cidade, 
envergonhando-te diante de todos. Não te detenhas na beleza de um 
ser humano, nem te sentes no meio das mulheres, porque da roupa 
sai a traça e da mulher, a malícia feminina. É melhor a maldade 
do homem do que a bondade da mulher: a mulher causa vergonha 
e chega a expor ao insulto.” (Eclo 42,9-14)
- Tresloucou, de vez, o autor! Que mulher desculpará tais 
vexatórias afirmações a uma Bíblia dita sagrada? O autor – ou 
supostamente Deus através dele – atingiu o auge do absurdo! E 
diz o “nosso” comentador: “Os costumes fazem parte do contexto 
cultural e não perdoam. O autor cede à mentalidade antifeminista 
até ao paradoxo. Jesus veio corrigir muitas coisas. Descobrimos 
hoje que só integrando a dimensão feminina, a humanidade pode 
reencontrar a sua alma e a sua sensibilidade criadora.” (ibidem). 
Estas palavras sensatas em nada apaziguam a nossa revolta. 
Aliás, são próprias dos exegetas das suas religiões, neste caso, 
o cristianismo: tudo o que na Bíblia é absurdo ou totalmente 
inaceitável, desculpa-se com a cultura da época, esquecendo-se 
que antes afirmaram que “Toda a Bíblia é de inspiração 
divina”. Para nós uma parcialidade imperdoável! Depois, que 
dizer de uma Bíblia, inspirada por Deus, mas que tem de ser, mais 
tarde, corrigida por Jesus Cristo? E que religião é esta que só hoje 
descobre que a humanidade precisa da dimensão feminina para 
reencontrar a sua alma? E como é que a inspiração divina não 
se sobrepõe aos costumes que “não perdoam”?

A beleza de um ser humano é certamente a mais bem conseguida pela Natureza, no seu processo criativo. E a beleza do corpo é abrilhantada pela beleza da alma, obviamente quando esta cria arte, fraternidade, amor, equilíbrio no ser de que faz parte e nos seres que a rodeiam.



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 121/?

À procura da VERDADE nos livros Sapienciais


O ECLESIÁSTICO – 13/15


- “Meu filho, derrama lágrimas pelo morto (…) Chora amargamente, 
bate no peito e observa o luto (…) para evitar os comentários do 
povo; e depois, consola-te da tristeza. Porque a tristeza leva à morte, 
e qualquer aflição do coração consome as forças. Na desgraça, a tristeza 
permanece e uma vida triste é insuportável. Não entregues o teu 
coração à tristeza, pensando no fim que terás. Não te esqueças: da 
morte, não há retorno. A tua tristeza em nada servirá ao morto e 
acabarás por te prejudicar. Lembra-te: a sorte dele será também a tua. 
Eu ontem e tu hoje. Quando o morto repousa, deixa de pensar nele. 
Consola-te porque o espírito dele já partiu.” (Eclo 38,16-23)
- Fantástico, simplesmente! Que realista este autor! Que “divina” 
comédia! Que delicioso aquele fingido chorar! Não se vislumbra é 
nada de eternidade ou… de divino, como sempre! Apenas, o aproveitar 
ao máximo esta vida que é a certa, no prazer e na alegria de viver, 
afastando-se a tristeza que consome vida, esta vida. A outra… 
Bem, não há dúvida: os mortos deveriam mesmo vir cá dizer o que se 
passa no Além. Ou Jesus Cristo, ou os santos ou os anjos ou um dos 
nossos próximos antepassados… Assim, acreditaríamos e 
“salvar-nos-íamos”. Cristo e o Pai teriam atingido facilmente os seus 
objectivos. Mas… ninguém vem! Ninguém! E nós aqui na angústia 
de querermos que houvesse realmente um céu ou até um inferno, 
alguma coisa para além da morte! Mas… parece que não há mesmo 
NADA. Um grandíssimo… NADA!
- “Aquele que está livre das actividades torna-se sábio. Como poderá 
tornar-se sábio aquele que maneja o arado e cuja glória consiste em 
manejar o ferrão (…) e só sabe falar de vitelos? (…) Entretanto, 
são eles que sustentam as necessidades básicas e a sua oração 
consiste em realizar o próprio trabalho.” (Eclo 38,24-34)
- Quem será mais sábio perante Deus: o sacerdote ou o lavrador? Porque 
não deixam os dignitários religiosos em paz, na sua “oração” sincera e 
telúrica, os que só sabem falar de vitelos, prometendo-lhes falsas 
verdades, a troco do dízimo com que se alimentam? É que, apesar de 
“não-sábios”, sentem na pele a doença inexplicável, o azar da má 
colheita, o vitelo que morre sem razão… E Deus é o único refúgio 
para tanta desgraça. Senão, para quem poderão apelar? As religiões 
terão nascido da nossa necessidade de um Deus realmente existente, 
realmente presente. Mas os gurus religiosos perverteram-nas, criando 
deuses impossíveis, porque feitos à sua imagem e semelhança. 
Por outro lado, se sentimos a necessidade de Deus, é lógico que 
Deus exista, não o/os das religiões, mas o ABSOLUTO, O TODO 
ONDE TUDO SE INTEGRA, ESPAÇO E TEMPO, TUDO SENDO 
PARTÍCULAS DELE, DO ÁTOMO AO UNIVERSO. E, quando 
dizemos “Meu Deus!”, é com esse ABSOLUTO que conversamos, 
é a ELE que rezamos…
- “Diferente é o caso do que se aplica a meditar a Lei do Altíssimo. 
(…) Se viver muito tempo, deixará um nome mais famoso que mil 
outros e quando morrer, isso lhe bastará.” (Eclo 39,1-11)
- Bastará para quê? Insensato! Como se contradiz com o que há 
pouco disse sobre a morte! A propósito, comenta-se: “O elogio 
feito ao escriba-sábio mostra a importância que essa profissão teve na 
época. De facto, (…) graças ao escriba, chegou até nós a memória do 
povo de Deus.” (ibidem) Ora, várias questões se colocam: O que é a 
Lei do Altíssimo? E não foi Israel que se auto-proclamou “povo de 
Deus”, “povo santo”? Porquê havemos nós de o considerar assim? Não 
é óbvio que não é santo coisa nenhuma, à luz do que Israel é hoje? 
Ou o “seu” Javé-Deus já se esqueceu de o considerar como tal? Enfim, 
como é possível continuarmos a basear-nos nos escritos de um tal 
povo, fazendo deles a base da VERDADE acerca do nosso fim último?
- “Desde o princípio, as coisas boas foram criadas para os bons, assim 
como os males foram criados para os pecadores.”Eclo 39,25)
- Mais afirmação completamente insensata! Cristo dirá que “o Pai que 
está nos Céus faz nascer o Sol tanto sobre os justos como sobre os 
pecadores” (Mt 5,45), o que é obviamente verdade.
- “Desde aquele que se senta num trono glorioso até ao mendigo sentado 
no chão e na cinza, (…) tudo é raiva, inveja, ansiedade, inquietação, 
medo da morte, ressentimento e brigas.” (Eclo 40,3-4)
- Pessimismo exagerado e sem fundamento. Se “tudo” fosse assim, a 
vida seria insuportável! A verdade é que tanto o rei como o mendigo 
terão o mesmo destino: a integração, átomos e moléculas, no “donde 
vieram”: a Terra. E será na morte – ou infelizmente, só na 
morte – que se fará justiça e se construirá a fraternidade universal!
- “Vinho e música alegram o coração, mas acima deles está o amor 
à sabedoria. Flauta e harpa tornam agradável o canto, mas superior 
a elas é a voz melodiosa. A graça e a beleza agradam aos olhos, 
mas acima deles está o verde dos campos. O amigo ajuda o seu amigo 
no momento oportuno, mas melhor do que isso é o encontro da mulher 
com o homem. (…) Riqueza e força engrandecem o coração, mas 
acima delas está o temor do Senhor.” (Eclo 40,20-26)
- A beleza da forma supera talvez a das ideias, neste confronto 
tripartido. Quanto ao temor de Deus, comenta-se: “Não se trata de 
ter medo mas de reconhecer que só Deus é absoluto, só a Ele 
o Homem deve adorar.” (ibidem) E nós perguntamos: O que é isso 
de reconhecer Deus? O que é isso de adorar a Deus? Como? Onde? 
Quando? Acaso mesmo Jesus Cristo conseguiu ensinar-no-lo? Aliás, 
que lhe adiantou fazer todos aqueles milagres (terá feito?!), se não 
conseguiu convencer os judeus de que Ele era realmente o Messias, 
o Enviado do Pai, o Prometido desde todo o sempre, o Anunciado 
pelos profetas? Só para cumprir profecias, de duvidosa interpretação, 
que falavam em “cordeiro imolado”? E… estariam os judeus 
“fadados” à tremenda sina-missão de imolar Cristo 
para que as Escrituras se cumprissem? – Um Deus-Deus, o próprio 
Javé-Deus de Israel certamente não permitiria tal destino! Mas 
certamente foi nessa convicção que Jesus aceitou, se resignou, 
suando suor e sangue: “Pai, faça-se a tua vontade e não a minha!”? 
É um angustiante mistério, para Ele que o sofreu, para nós que 
não o entendemos. De qualquer modo, um oportuno aproveitamento 
dos seus seguidores para criarem uma nova religião: o Cristianismo.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 120/?

À procura da VERDADE nos livros Sapienciais


O ECLESIÁSTICO – 12/15

 - “Glorifica o Senhor com generosidade e não sejas 
mesquinho nos primeiros frutos que ofereces. Quando 
ofereceres alguma coisa, apresenta um rosto alegre, e 
consagra o dízimo com boa vontade. Oferece ao Altíssimo 
conforme o dom que Ele te fez (…) Ele em troca te dará 
sete vezes mais.” (Eclo 35,7-10)
- Afinal, a quem se dá? - repetimos. Ao Senhor ou ao Templo 
e aos sacerdotes? E quem fez a lei do dízimo? O Senhor 
ou os Sacerdotes? Esta dicotomia Deus-Sacerdotes e Templo 
sempre serviu para justificar os maiores atropelos à consciência 
dos povos. É que dar 10% dos meus pertences - e dos melhores - a 
uma igreja que me oferece apenas mistérios acerca do meu fim 
último, enchendo-me de esperanças vazias de fundamento 
credível é mesmo muito!… E quem é que já viu o Altíssimo 
dar sete vezes mais?! É mais uma afirmação para levar os crentes 
à dádiva…
- “Castigando-nos, mostraste às nações a tua santidade. Agora, 
mostra-nos a tua grandeza, castigando as nações. Deste modo 
reconhecerão, como nós também reconhecemos, que não existe 
outro Deus além de Ti, Senhor. (…) Desperta o teu furor e 
derrama a tua ira, para destruir o adversário e abater o inimigo. (…) 
Tem compaixão de Jerusalém, tua cidade santa e lugar do teu repouso.” 
(Eclo 36,3-6 e 12)
- Voltámos, com tristeza, ao antigo Deus de ira que julgávamos estar 
definitivamente ultrapassado! E que santidade a de Jerusalém, 
cidade tantas vezes conquistada e arrasada, no passado e, hoje, 
fulcro de discórdias que parecem insanáveis entre judeus e 
palestinianos? Enfim, mais uma vez se humaniza Deus, atribuindo-lhe 
um lugar; tal como fará Cristo quando expulsou os vendilhões 
do Templo, chamando-lhe “casa de Deus” e, depois, todos os locais 
de culto, chamadas igrejas. Uma tristeza de Deus…
- “A beleza da mulher alegra o rosto e supera todos os desejos do 
homem. Se nos seus lábios existe bondade e doçura, o seu marido 
é o mais feliz dos homens. Quem adquire esposa, tem o 
começo da fortuna, pois ela é auxiliar semelhante a ele e coluna 
de apoio.” (Eclo 36,22-24)


- Redime-se aqui o autor do que atrás disse da mulher! Mas… 
será consistente e sincera a sua redenção?!
- “Segue o conselho do teu próprio coração, porque ninguém te será 
mais fiel do que ele. (…) Não sejas insaciável de prazeres (…) 
quem sabe controlar-se vive muito tempo.” (Eclo 37,13 e 29-31)
- Bons conselhos, não há dúvida! E, em Eclo 37-38, fala-se do 
verdadeiro amigo, do cuidado a ter com os conselheiros, do 
autodomínio, dos médicos e da doença, do luto… Mais uma vez, 
teremos de perguntar: “Qual é realmente o objectivo desta nossa 
vida terrena? Viver muito tempo?” Parece fraco objectivo, numa 
perspectiva religiosa, em que se procura não o viver muito tempo na 
Terra, mas a vida eterna no céu! Enfim, seguir o coração, será bonito, 
romântico, belo, poético! Mas se o coração é emoção e se a emoção 
tem tanto de perdição quanto de vivências de indizíveis prazeres, não 
sei se, mesmo humanamente, nos devamos deixar sempre levar por 
essa máquina imparável que nunca pára de bater enquanto há vida…